Get Adobe Flash player

O caminho da Molécula

Revista n.º 15 - O Caminho de Molécula - 23/10/2008

Não sei como nasci.
A minha história perde-se no tempo e no espaço!
Tempo e espaço, não existem para mim! Somente os refiro para me poder exprimir.Comecei a ter consciência de mim própria, mal me recordo, há quase uma eternidade, fazia parte do verde caule de um pé de trigo. Vivia numa extasiante planície do sul. O sol da primavera acariciava-me durante o dia no mar verde ondulante da seara viçosa a que a brisa do fim de tarde imprimia movimentos dançantes de suave beleza, em adágios, gavotas e rondós de uma natureza imaculada, quais hinos a ela agradecidos por Paz tão Profunda que viviam.

Durante a noite, deixava que a luz prateada da lua me bailasse até que o reparador sono, enfim, me desembriagasse dos álcoois do inefável.Verdade, verdade é que vivia sonho em movimento perpétuo!Em mim, sentia que a consciência começava debilmente a despertar. Era eu, a tímida molécula, ruborizada de identidade, escondida, insignificada na multidão que em vão procurava segregar em esquemas pouco sucedidos.Era tarde estival, o trigo já sazonava havia tempo.
Eis senão quando ouço uma leve agitação logo seguida de um bater de asas como quem pousa. Mal tive tempo para me aperceber se era um humano, insecto ou uma ave. Senti que algo vivo pousou no meu caule pai.Então, tudo se tornou mais calmo, mais parado. Tive até um certo temor de tanto silêncio. Apenas me apercebi de um levíssimo arfar respirante.
Mas... Era uma borboleta, estava junto de mim e sugava as minhas companheiras. Naquele vórtice centrífugo fui irresistivelmente arrastada. A minha natureza alterava-se na viagem longa que era obrigada a fazer. Fiquei tão excitada, tão amedrontada, tão enfraquecida, que perdi os sentidos.Não sei quanto tempo depois, tomando de novo a consciência, senti-me outra molécula, muito mais leve, mais bela, mais móvel, transparente mas colorida, como o cristal do vidro, plena de tons em constante mudança.

Foi então que me reconheci de novo. Eu, molécula de cores, tinha passado a molécula de mariposa. Verdade! Estava na asa da borboleta! Sinto pena sincera de vós humanos, sim, porque jamais vos será dado imaginar a minha alegria, a alegria da minha nova condição. Imaginem-me na asa da borboleta, vibrando não sei quantas vezes por segundo, dançando frenéticos bailados aéreos, lá em baixo, as minhas irmãs do trigal maduro, acenando-me adeus em estonteantes mensagens giratórias, quais girândolas de fogo preso em dia de festiva romaria. Não me cansava, molécula rodopiante e louca, cega por arrebóis de luz, mais e mais feliz!

Seria que com esta minha força franca e feliz estaria eu própria emprestando energia à mãe borboleta para que ela pudesse seguir o seu rumo tradicional e natural? Sentia, ainda que duvidosa, que sim, que sim. E foi nesta sinfonia dançante que rápido, fulminante, se ouviu o primeiro trovão, depois a copiosa chuva invernal. As asas da mariposa ficaram encharcadas, pesadas... Só me restou sucumbir ao derradeiro sono. Por um momento, como se um filme parasse, imobilizou-se no ar. Depois, em movimento pendular, como quem desce bailando sem energia, veio afundar-se no pego do ribeiro caudaloso.De novo me senti mutante e miserável, que o contexto do desconhecido obrigava. Desta vez não desmaiei. Queria sentir a nova mudança que adivinhava.Ao cair na água fui-me desprendendo da casa-asa onde vivi alegres eternidades. Fui ficando água, mais fluida, mais moldável, sem rigidez. Que bom ser descontraída, sem medos! Meu pai era o torrentoso ribeiro! Quanto mais a minha forma ficava confundida com a das minhas moléculas companheiras, mais tinha consciência da minha existência individual. O individual confundia-se com o colectivo, o rio era a molécula, eu era o rio!

Tinha inteira consciência do meu papel na hierarquia molecular.Ocorriam momentos em que não sabia se estava parada ou se me deslocava com a corrente. Cheguei a pensar, sonhando talvez, que o movimento da água era aparência e que resultava da transmissão de qualquer coisa que nós, moléculas, fazíamos umas com as outras. Era estonteante esta aprendizagem do movimento dentro do movimento, já que o meu arbítrio permitia que me deslocasse em sentido contrário, sem contudo por em causa o curso global do caudal. Foi a partir dessa altura que sem bem saber explicar como, ousei tomar o primeiro contacto com os humanos. Penso que foi um peixe que, ao ser pescado, me conduziu a uma mesa, à mesa de uma pobre família de pescadores.

Como já se aperceberam, o meu nível de consciência aumentava mais e mais, já não era uma molécula qualquer, humilde sim, mas não qualquer! Ganhei então o vício dos humanos. Fui músculo do braço de um marinheiro do Século XV. Trepava pelo cordame à vela mestra da caravela e lá, no cesto da gávea, quedava-me horas e horas a sonhar com praias mansas de ilhas idílicas. Com ele aprimorei o diálogo do sonho!Então transmigrei para osso. O meu senhor era mestre arquitecto. Trabalhou na Construção da Torre de Belém e só eu sei quanto estudou para poder conseguir todo aquele hino de harmonia e de rigor geométrico que avidamente aprendi. Depois fui pulmão de um homem engenhoso, imaginativo e aventureiro. O seu objectivo era conseguir voar. Trambolhões e quedas não o impediram de finalmente conseguir um dos primeiros voos do mundo em balão. Que vida atractiva ele viveu, que compensações as vidas nos podem trazer, meu Deus!

Jamais parando, cheguei aos olhos de uma criança. Que bela é a visão de uma criança, o que ela vê, como ela vê, que sabedoria e que lições para os adultos ignorarem! Depois, essa visão foi desaparecendo à custa de cruéis reprimendas, até ao crepúsculo visual, em que o olhar começou a ficar baço e a dar finalmente a merecida oportunidade aos olhos interiores.
Por fim, pouco a pouco, extinguiu-se aquele espelho da alma, libertando uma derradeira lágrima para a corrente sanguínea do neto adorado, que beijava num derradeiro adeus!Molécula de ferro, glóbulo vermelho de energia, logrei comprovar o alento daquele que seria o homem capaz de vencer batalhas em campos disputados palmo a palmo, consagrando todo o fulgor do graal ao venerável senhor, cavaleiro andante que as cruzadas do seu ideal fizeram arrastar, para perigos, motores da construção e da destruição, ventos de ilusões e de dor, jazigos da vida e rosas de uma morte nascida em quimeras desafortunadas.
E, de tanto pensar, o desejo levou-me ao cérebro de um monge iluminista. Hora a hora, dia a dia, revelava-me os segredos das ilustradas brochuras que, copiando, estudava. Quanta sabedoria, quanto empenho em tudo, porém, quanta humildade, quanta paz, como a dos claustros que o albergavam!
Assim fui evoluindo, assim a minha consciência foi abrangendo mais e mais, em egrégoras coloridas, espalhando o bem estar e a beleza até as suas direcções se perderem e se fundirem ao tocarem-se pelos opostos. Por pôr nisso todo o coração, eis-me no coração do coração, pensando se um dia deverei parar ou se, pelo contrário, a minha verdadeira condição é o anti-parar.

E, no coração da mulher, penso no Cósmico, na grandiosidade que um dia terei, quando me fundir e confundir com Ele, mergulhando para todo o sempre n'Ele. O processo da Criação tem que ser o processo do Amor, jamais poderei admiti-lo de outro modo. E porque não seguir o percurso da ponte entre o coração, agora meu abrigo, e o da Criação?
É então que o êxtase da consciência me leva a entrar no turbilhão inefável que sinto aproximar-se.É no início um som cavo, surdo, em crescendo arrebatador, depois é a explosão, o "big-bang" da criação, com miríades de estrelas, de meteoros faiscando em luminosas volutas, de grinaldas de fogo abrindo-se até ao infinito, de túneis de luz espiralante, de estalactites ígneas em cavernas de poder vulcanizando todo o espaço celeste, e, como tela de fundo de todo este quadro, uma chuva de prata caindo copiosa, criando torrentes cristalinas, rápidas, de espuma envolvente. Não podia resistir mais . O chamamento era mais poderoso do que a contemplação.

Deixei-me ir, insignificante molécula merecedora porém do espectáculo ímpar e arrebatador que presenciava. Entrei em rodopiantes, estonteantes movimentos de turbilhão, que se foram engrandecendo por uma infinidade consoladora até ao clímax.
Por fim, tudo acalmou. A consciência foi voltando a mim. Finalmente, estava no núcleo da vida, era a molécula de um feto e iria, com toda a minha experiência, com todo o meu amor, ajudá-lo a evoluir, humanidade a fora! Alguém disse que a história da molécula é a história da Vida e a história da Vida, direi eu, é a história da evolução.Proposta: como exercício mental-emocional, façamos, do ponto de vista de cada um, a fatal analogia entre a vida da molécula e a nossa própria vida.


  • Facebook: 100010063560908
  • YouTube: MydoctorClinic

Conselhos de saúde do Prof. Carvalho Neto.